Ficar: Liberdade ou medo

Algumas pessoas saem as ruas para paquerar, dar beijo na boca, e acham que os outros devem agir assim também, levantam a bandeira do relacionamento sem compromisso e pregam aos "amigos" que assim é o certo e por este caminho "com certeza" encontrarão a felicidade. Outras pessoas ficam em casa teclando com muitos pela internet procurando na tela luminosa algumas palavras que possam preencher o espaço vazio, não querendo saber de compromisso afetivo, de laços, dizendo: não quero ser de ninguém!

Um abraço é bom? Lógico que é! Viver badalando de festa em festa, também é ótimo, conversar horas pela internet em uma sala de bate papo com qualquer um que tenha idéias parecidas, até quebra o galho. Mas por que depois vem a solidão, a falta de sentir intimidade falando mais forte que as emoções das festas? Talvez pelo medo de decepção, de sofrer, de se envolver emocionalmente e se machucar, medo só medo.

São estas as conseqüências de viver assim, cada dia em um abraço diferente, mas não dá para viver deste jeito, sem ter alguém de verdade. "Alguém de verdade" é aquela pessoa que telefona no outro dia, que se interessa pelas coisas que acontecem com você, que fica torcendo para que tudo dê certo, que fala: "estamos namorando", que se importa em ser fiel um ao outro. Ás vezes pode parecer difícil encontrar esse alguém, é um verdadeiro "nadar contra a correnteza" (Claro, pois se você prega a liberdade, a falta de compromisso afetivo, afasta qualquer possibilidade de alguém se interessar por você para pensar em relacionamento sério). A nova geração está pregando uma nova modalidade de relacionamentos relâmpagos, o tal do "ficar" onde você beija na boca hoje e amanhã se encontrar na rua finge que nem conhece, que nunca viu, esta nova visão do "ficar" deixa negativo o lado dos relacionamentos sólidos, afastando as possibilidades.

Antigamente no casamento era questionadas somente a satisfação masculina e as mulheres não tinham liberdade econômica e profissional, engoliam as cobras, sapos e lagartos, jamais perguntavam se ela consentia ou não com a união, então era difícil acontecer a troca de sentimentos e algumas mulheres jogavam a culpa no homem desabafando com os filhos, chorando pelos cantos, os homens em contrapartida saiam para encontros furtivos, envolvendo-se com as perversas destruidoras de lares, a mulher chorava, o homem batia a porta e os filhos presenciavam uma história frustrante de vida a dois. Agora os relacionamentos podem ser melhores, ambos buscam por uma pessoa amiga e companheira, onde haja mais respeito e um trate o outro com carinho e atenção. Nos dias de hoje é diferente da época de nossos pais, é mais simples, porque agora você pode optar por um par para viver e ser responsável pela sua escolha sem culpas. Não precisamos amar sob os conceitos negativos que nos foram passados, nem podemos permitir que o medo roube nossas boas e verdadeiras emoções.

Porque se deixarmos o medo dominar ficará difícil experimentar momentos deliciosos que a vida reservou para o ser humano, como um chocolate quente debaixo de um cobertor e um filme interessante na noite fria, ou um pôr de sol em uma tarde quente com todas as luzes pintadas no céu, ou o saborear de um prato delicioso feito pelos dois iluminados à luz de velas, de dançar agarradinho... Ou a emoção de um nascer do dia com canto dos passarinhos. Namorar de verdade é assim: ir de mãos dadas ao cinema e poder ter a liberdade de chorar no ombro do outro, simplesmente é ter alguém para amar.
Mas para viver as delícias de uma vida a dois, primeiro é preciso ter coragem e ser autêntico, depois é necessário querer viver um sentimento, é estar disposto a aceitar falhas, a dar e receber, é estar todos os dias, disponível para um coração, que bate dentro do outro peito, é saber rir até das coisas ruins e poder dizer como o nosso poeta Vinícius de Moraes "Amo-te como amigo e como amante. Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante. E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade, dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente. De um amor sem mistério e sem virtude, com um desejo maciço e permanente".

André Carvalho e Roseli Sanches Carvalho.