Construindo um novo casal e uma futura família

De repente uma separação leva um homem ou uma mulher a ficar de frente com mudanças que eles não esperavam. O plano inicial era ser feliz até que a morte os separe. O casamento era a garantia, mas não existe garantia. Porém ser descasado não é uma doença contagiosa, nem sinônimo de infelicidade eterna.
Para quem fica solteiro novamente existem dois desafios básicos: o primeiro é digerir a perda, o segundo é reconstruir a própria vida. 
O filme antigo Os seus, os meus e os nossos fez mais que divertir o público com as histórias de dois viúvos que, apaixonados, decidem não só trocar alianças como reunir, sob o mesmo teto o batalhão de filhos que cada um deles trouxe de seu primeiro casamento. Esta não era a primeira vez que o cinema  mostrava uma situação que copiava a vida e obviamente a união entre viúvos seus filhos não era novidade na história da raça humana. No entanto, naquele momento, a sociedade ocidental passava pelo primeiro estágio de uma revolução comportamental e sexual que transformaria de maneira radical a estrutura familiar.
Estrelado por Henry Fonda e Lucille Ball, nada mais foi do que uma maneira engraçada e delicada (por isso mais fácil de ser aceita por segmentos conservadores e tradicionais da comunidade) de mostrar que poderia se formar um novo núcleo a partir dos remanescentes de famílias desfeitas.
Esta nova estrutura familiar ganhou corpo, se expandiu e se complicou, a tal ponto que hoje quase precisamos usar esquemas para entender as relações existentes entre os seus componentes. Na festa de aniversário de um adolescente, por exemplo, podem ser vistos sua mãe com o atual marido e os filhos que ele teve em uma relação anterior; seu pai, com a segunda mulher e a filha que resultou dessa união; seus avós paternos e maternos e as pessoas ligadas a cada um dos membros desse grupo. Todos no mesmo ambiente, trocando idéias, sem constrangimentos. Uma nova família. Sem dúvida, esta imagem de harmonia é bonita, mas nem sempre corresponde a realidade; um observador atento desta festa pode notar uma sutil animosidade entre a mãe do aniversariante e a atual esposa do seu ex-marido, para não falar do fato de que a avó materna ignora a meia irmã do seu neto e o avô preferia nem estar ali.Mas não podemos ignorar que, ao contrário dos adultos, crianças e adolescentes mantém um relacionamento mais aberto, partilhando aquele espaço com desenvoltura, liberdade e afeto.
A psicóloga Delmar G. Franco, também constata esta naturalidade, mais enfatiza a importância de uma posição mais madura por parte dos adultos para estimular e manter o equilíbrio das relações.
Eliminados os conflitos dos adultos os que podem surgir entre os irmãos de pais diferentes são semelhantes aos que surgem na convivência de quaisquer irmãos, como ciúmes, disputa de atenção etc. São problemas que podem ser administrados com a firme intenção de promover a harmonia familiar. Para envolver a nova família em equilíbrio e carinho é necessária uma qualidade essencial em nosso tempo: o desapego. “Sim, porque o velho padrão traz embutido um sentimento de posse em relação às pessoas tanto quanto aos objetos. Só quando esse sentimento for eliminado poderemos encarar cada pessoa como um ser humano livre, explica Delmar, que aponta aspectos benéficos da nova estrutura. “Esse alargamento das relações familiares é positivo, pois amplia o leque de nossos relacionamentos e dá para a criança, exemplos variados de organização familiar. Ela passa a conviver com um número maior de pessoas e pode aproveitar essa experiência observando como vivem, seus hábitos, atitudes e crenças. Se antes o convívio se limitava à casa dos pais, avós e tios, hoje isso é multiplicado por dois ou três, enriquecendo a vida infantil.
Acredita Sheila Mazzolenis que nesse sentido a família caminha não para uma dissolução, como se temia, mas para a ampliação dos laços afetivos. Isso, para a psicóloga, representa o início de um processo para a formação da grande família na qual os sentimentos de fraternidade, de harmonia e de amizade poderão se estender para além, muito além, da consangüinidade.
A sociedade sempre tende a se reestruturar, formando novos casais. Hoje as pessoas estão em busca do amor e companheirismo, de qualquer forma, para o descasado a necessidade de amor é grande. Porque amar e ser amado é a mais reparadora das experiências humanas.       
André Carvalho e Roseli Sanches Carvalho