Ciúmes

As pessoas às vezes dizem: quem ama sente ciúmes. Afinal, é comum pensar que uma coisa leva a outra, certo? Errado. É claro que se você sente um pouco de ciúme de seu amado, não tem motivos para se preocupar. Isso é perfeitamente normal e até saudável. O problema é quando este sentimento assume proporções gigantescas, doentias, sem que você consiga perceber que as coisas estão passando dos limites. Segundo a psicóloga Rosely Sayão, autora do livro "Sexo é Sexo", quando os ciumentos chegam nesse ponto "eles quase sempre caminham para a ruptura e para a solidão".

Ou seja: existe o risco de seu parceiro se encher da "marcação cerrada" e "colocar as pernas para correr".Amor demais...Essa é a justificativa que toda pessoa ciumenta usa, para brigar por qualquer motivo, para importunar nas horas impróprias, dando "incertas" ", ligando para o emprego, enfim, para demonstrar que o ama desesperadamente".

Exclusividade total.

Sentimento de posse e medo (da perda da exclusividade, da ameaça da entrada de uma terceira pessoa na relação) se misturam para forjar o ciúme.
Segundo a psicóloga Heloisa Fleury, professora do instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, "o pavor de perder o ser amado e crença na propriedade sobre ele são faces da mesma moeda".

É fácil de entender que o ciúme doentio deriva, em grande parte, do sentimento de posse que se tem sobre o outro. Se ele "é meu", pensa a pessoa ciumenta compulsiva, não pode ser de mais ninguém e, para defender a "minha propriedade", eu posso tomar qualquer atitude.Não passa pela cabeça que o outro é um individuo dotado de vida própria, que as amizades sejam só isso mesmo: simples amizade. Haverá sempre alguém querendo roubar o que "lhe pertence".Aliás, quem sofre de ciúme doentio vê fantasmas em todos os cantos, nos menores gestos e olhares mais inocentes e o que é pior: sofre tremendamente com isso.

Para o psicólogo Alberto Goldin, autor do livro "Histórias de amor e sexo", as raízes do ciúme podem remontar a infância."Este sentimento nasce quando, ainda crianças, são ameaçadas pelo pai, pelos irmãos de perder o lugar junto à mãe". Para Heloisa Fleury, sentir-se assim faz parte do desenvolvimento emocional da pessoa e é até certo ponto "admirável". "Só que existem pessoas com maior dificuldade de lidar com a ameaça".

.O medo de perda não é uma coisa racional e, sim, ligada à emoção". Já para o psiquiatra cearense Antonio Mourão Cavalcante, autor do livro "O ciúme Patológico", as raízes podem ser mais profundas. Ou o pai era muito mulherengo, ou a mãe adúltera, fazendo com que o medo de ser traído se tornasse uma preocupação constante em sua vida adulta", afirma o terapeuta.

"Outro grupo é daqueles que, na infância foram sistematicamente desqualificados pelos pais. A crianças que a todo tempo é classificada como idiota, burra, por exemplo, acaba desenvolvendo um complexo de inferioridade".

Quando adultas, não entendem como podem despertar afeto em alguém, e passam a acreditar que estão sendo enganadas, "ensina Mourão".Por fim "diz ele", há aquele grupo de garanhões, que acham que os outros homens vão fazer, com a sua mulher, o que ele faz com a deles".

Racional ou não, ciúme doentio quase sempre acaba levando o outro, objeto da espécie de amor exclusivista, ao desespero.Um dos problemas que uma pessoa ciumenta causa: expor a pessoa em situações no mínimo embaraçosas. Muitas vezes sem intenção, é claro, já que a pessoa não consegue colocar limites em seus sentimentos e faz qualquer coisa para não perder. E é aí que mora o perigo: suas atitudes acabam por afastar, cada vez mais, o amado.Afinal, quem gosta de ser vigiado e submetido ao ridículo? Já deu para você perceber, é difícil saber quem é mais ciumento, o homem ou a mulher, já que o sentimento é universal. Uma coisa é certa: Segundo Antonio Mourão, o homem fala menos a respeito do problema "Eu digo que o ciúme masculino é ruminante; o homem fica guardando consigo, até que em determinado momento explode".

A fragilidade é a principal característica do ciumento, diz Antonio Mourão "Por isso ele é tão possessivo e irracional", afirma. "Para mim, o ciúme, mais que do amor, é fruto da paixão, um sentimento muito mais quente, emocional, intempestivo". Na verdade, poderíamos dizer que o ciúme é uma "doença da paixão" ". Muitas vezes incurável".

Mais que ser fruto do amor, ciúme doentio nasce com as emoções fortes confirma Ivan Miziara. A terapeuta de casais Dra Margareth L. Eidt acredita que o ciúmes está intimamente ligado as questões de confiança e desconfiança, temos ciúmes por que nos sentimos ameaçados em nosso território. Quando por alguma razão seja um olhar da pessoa amada é desviado, sentimos como se ela não sentisse mais atração por nós. Segundo nossa história familiar que está inconscientemente guardada e nos acompanha entendendo que o modelo primeiro de amor são nossos pais , vamos sentir com maior ou menor intensidade. Quando estamos no estágio do "apaixonamento", estamos deslumbrados, o ciúmes se confunde com o amor, em um segundo momento achamos o ciúmes medido é normal. Mas quando por qualquer razão tudo que o outro faz é motivo para desconfianças, chamadas no celular, e-mails, saídas, amigos. Começamos a pensar em ciúmes patológico, este destrói a relação amorosa, você passa a sofrer em demasia a ponto de prejudicar seu trabalho, suas amizades que já não agüentam mais ouvir falar de tal assunto, você passa as fronteiras, invade e começa a viver a vida do outrem.

As pessoas devem se unir pelo coração e não pela posse. Cada pessoa tem o direito de buscar sua felicidade e individualidade.

Amar significa acrescentar algo, crescer juntos e construir uma vida com harmonia.

André Carvalho e Roseli Sanches Carvalho.

Jornal da Manhã ( Marília - SP)
01/ agosto/ 2004